As mais recentes notícias sobre o envolvimento de jovens da classe média com o tráfico de drogas e armamentos apontam para uma questão crucial que afeta toda a sociedade e vem se ampliando : o valor da própria vida.
É fácil condenarmos a violência que ameaça a segurança da sociedade da qual fazemos parte em relação a um determinado grupo. Mas de quem é o punhal da violência contra a sociedade quando as nossas impressões digitais também estão na faca?
O problema das drogas ignora as fronteiras de classes. Essas mesmas fronteiras construídas pelo medo, pela indiferença, pela arrogância, pela insegurança, em que as pessoas costumam se separar uma das outras. Em uma sociedade em que as pessoas perdem a confiança umas nas outras a violência prospera assim como todos os mecanismos necessários para que a segurança e o poder sejam garantidos com mais armas, mais medo, mais violência.
Se aquilo do qual mais fugimos na vida costuma vir ao nosso encontro, exigindo a nossa presença, é cada vez mais imprescindível que seja feito um enfrentamento sério e destemido dessa situação. Nesse enfrentamento vamos perceber que há mais coisas em comum entre os jovens da classe média alta e aqueles jovens que circulam pelo
tráfico nos redutos das favelas com outras drogas e armados também.
Vamos evoluir ao ponto de também atingirmos o nível de facções na classe média alta como acontece no narcotráfico da coca? Ainda não chegamos a esse ponto . Ainda... é bom lembrar. Mas parece haver um caminho aberto e em expansão para essa possibilidade.
Existe , por outro lado, um caminho em que podemos e precisamoscompreender o lugar que a droga ocupa na vida do ser humano, especialmente na vida dos jovens, da classe média alta à baixa. A curiosidade , o exemplo e o desafio costumam inspirar os jovens a buscar drogas e situações de risco. A necessidade de sentir-se visível em seu grupo de convivência, no qual descobre seu valor pode levar o jovem a buscar isso fora de casa, sobretudo quando sua família é uma "familha", onde as pessoas mal se conhecem, não dialogam, não se tocam.. A ausência e/ou a falência das figuras parentais, responsáveis pela presença da Lei, aqueles princípios básicos que permitem dar ao indivíduo limites e compreensão de sua importância no mundo e para o mundo, pode ser um fator significativo na busca dos jovens por uma visibilidade junto ao poder fornecido pelo tráfico.
Os jovens carecem de líderes que os oriente, de espelhos parentais em que possam começar a perceber a importância do valor da própria vida, para conseguirem fazer escolhas com consciência. O que estamos espelhando para os nossos filhos, através de palavras e sobretudo atitudes no dia a dia?. Lembrando Virginia Satir: Quero te amar sem sufocar. Juntar-me a ti sem invadir. Estimar-te sem julgar. Convidar-te sem insistir. Criticar-se sem te acusar. Ajudar-te sem te afrontar. Deixar-te sem culpas. Se eu puder ter o mesmo de ti , juntos podemos nos integrar".
Silvia Pontes É Coordenadora Especial de Prevenção à Dependência Química da Prefeitura do Rio
Artigo publicado no Jornal do Brasil . Sociedade Aberta . 14.2
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